Carreira, filhos, etc e tal


Era uma segunda feira de janeiro, ela chegou para a primeira sessão de terapia.


Os olhos eram castanhos e expressivos, ela fazia gestos e dizia entre um suspiro e outro:

"Eu já tinha tudo planejado sabe, ia casar, ter filho e isso não ia atrapalhar em nada meus planos de ser diretora."


Aí casou... Ok, planos seguiam... Eram viagens de 10 dias para o exterior e reuniões que iam até 8, 9 horas da noite.

"Meu marido também era assim, então combinava sabe!"


Aí começaram os planos para engravidar...

"Eu via na empresa aquelas mulheres que depois de ter filho, ou abandonavam o trabalho, ou deixavam de viajar ou que choravam no final da licença maternidade e tinha certeza que aquilo nunca aconteceria comigo."


Me contou uma história de uma conversa que teve com o pai no dia do seu casamento...

"Meu pai e eu estávamos para entrar na igreja, ele pegou na minha mão e disse que nunca imaginou que eu ia casar, ele achava que eu ia ser essas mulheres solteiras, ricas e bem resolvidas... estilo Sex and the City, a série não o filme, porque no filme todas casam. Aí ele encerrou dizendo que nunca esperou que eu fosse ser uma mulher comum que pensava em casar e ter filhos."

Ela riu dizendo que depois dessa fala do pai, entrar naquela igreja foi a primeira grande dificuldade que enfrentou na vida.


O bebê nasceu... Voltou a trabalhar após 4 meses...

"Eu sentia uma dor física sabe, deixar meu filho com a babá doeu. Meu peito cheio de leite na reunião interminável doeu. Perceber que eu estava indo trabalhar chorando doeu. Ser uma mulher diferente e que eu desconhecia doeu."


As viagens voltaram quando o filho tinha 7 meses...

"Antes eu amava aquilo. O aeroporto, o avião, ter algumas horas só para mim. Agora eu só conseguia chorar, sentir o peito encher e chorar mais um pouco."


Quando o filho tinha 10 meses disse ao chefe que não viajaria mais com tanta frequência e que diminuiria a carga horária de trabalho...

"Eu queria trabalhar das 9h as 18h, não dava mais para sair as 21h."


Nos últimos minutos da sessão os olhos castanhos expressivos me olhavam com algumas lágrimas e ela dizia...

"Eu sinto falta do meu filho sabe... eu não vi quando ele andou e isso me fez chorar uns 4 dias. Sabe o que mais me angustia? Eu nunca pensei que seria essa mulher, que chora porque não viu o filho andar. E se eu sou essa mulher, todos os planos que fiz para mim não servem mais. Não quero o que eu queria, mas como nunca pensei que não ia querer o que eu queria não tenho plano B. Nunca aconteceu de eu não ter planos sabe?!?"


Ah sim, eu sabia e como sabia...


Encerramos.


E essa foi a história que ela me contou naquela segunda feira em sua primeira sessão de terapia.


Damiana Angrimani Bonavigo é mãe e psicóloga

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