Meu filho não come. E eu sofro.


Manu, quando só comia banana

Recebi um relato de uma mãe muito querida chamada Paula. E aí resolvi escrever um pouco sobre a alimentação das crianças, mas com uma visão voltada para a mãe. Quais sentimentos e cargas emocionais são gerados em uma mãe que tem um filho que os outros consideram “comer mal”.


Eu acho que experiências reais são ricas para qualquer texto, então pedi a permissão da Paula e inclui o relato dela para que todas possam conhecer um pouquinho desta história:


Tudo começou errado quando eu iniciei a introdução alimentar da Gabi antes dos 6 meses.


Mãe de primeira viagem desinformada e sem nem pensar em pesquisar, estudar, eu aceitei a indicação do pediatra e com isso também veio a culpa meses mais tarde. Até o primeiro ano, ela comia bem as papinhas que eu preparava, com carne, legumes, verduras, mas fui ensinada a passar bater tudo no liquidificador e passar na peneira. Sei que não existe um jeito certo, mas mais tarde eu achei que foi errado. A partir do primeiro aniversário dela, tudo que eu sempre idealizei foi por água abaixo. Ela passou a rejeitar tudo, tentei dar os legumes, verduras e carnes sem passar na peneira, sem bater, inteiros na mão dela, dar na boca, plantar bananeira, contar histórias, implorar. Sem sucesso. Com isso veio a frustração, um sentimento de culpa misturado com incompetência, aquele famoso ‘onde foi que eu errei’.


E para piorar a situação, o pediatra disse pra dar uma papinha daquelas industrializadas mesmo no almoço, para ela se alimentar com mais alguma coisa além do leite artificial (pois é, não mamava mais no peito) e mãe desesperada pra ver a cria comer, faz qualquer negócio e erra muito tentando acertar. Dei. E a criaturinha amou aquilo, para o meu completo desgosto. Foram alguns bons (ruins) meses aceitando SOMENTE isso. E eu não aprendi a lidar com esse período até hoje. Morria de vergonha de ir ao supermercado comprar as benditas papinhas. Eu acreditava que a operadora de caixa estaria me julgando de péssima mãe por dar a papinha industrializada, quando na realidade, eu mesma que estava me achando um lixo de mãe. E quem nunca se achou né? Me culpei muito por muito tempo e até hoje eu fico pensando em como seria ou se seria diferente se eu tivesse feito tudo de outra forma e mais um pouquinho de culpa.


Com os grupos no facebook, eu conheci muitas mães, as cheias de empatia e carinho, que me ensinaram bastante e tem suas partes de responsabilidade por eu ter aceitado que nada é como a gente imagina e as cruéis, desde as que diziam ‘meu filho come o que colocar na frente dele’, ‘minha filha até repete o almoço e a janta’ ate as que diziam ‘você é uma mãe ruim, onde já se viu não preparar a comida/plantar orgânicos/não conseguir alimentar a filha’, ‘com certeza foi seu erro na introdução alimentar’, ‘ahh isso quer dizer que a sua filha não gosta de você’.


E foi também com outras mães, amigas reais (não só virtuais), que conversando sobre isso, me fizeram ver que não existe um comer bem. Que o que é satisfatório para nós, pode ser (e quase sempre é) comida demais pra eles. Também pude enxergar que cada criança é de um jeito, que pra tudo existe um momento. Hoje ela tem 3 anos e 2 meses, e há 2 semanas vem ‘comendo bem’ todos dias e comida de verdade e falando que está uma delícia e quer mais. Isso me realiza? Muito. Estou curada? Não. Com o tempo e com muita terapia, eu acredito que vou conseguir me livrar dessa frustração que ainda me acompanha.


Será que alguma mãe se identificou?


Se não com a história de alimentação tenho certeza que mesmo que seja um pouquinho, nós mães sempre nos identificamos com a culpa e a frustração.


Acredito que grande parte desta sensação de frustração e culpa vem da ideia irreal de que as mães precisam ser mulheres maravilhas. Entendo perfeitamente o que a Paula diz quando se sentiu julgada pela caixa do mercado, mas a dura verdade é que o julgamento é muito mais interno do que externo.


A alimentação geralmente traz um peso muito grande a toda essa cobrança, ouvi de uma amiga que ela se sentia fracassada, envergonhada e desapontada, porque o filho dela não comia. Ela dizia que a hora da refeição tinha virado um pesadelo e que evitava ir a restaurantes para “não passar nervoso”. Hoje ela tem uma filha de quase dois anos e contou que pesquisou bastante antes de iniciar a introdução alimentar. Conta que é muito criticada por não oferecer refrigerante, açúcar e nem alimentos industrializados, apesar dos “pitacos” ela se diz satisfeita pela nova escolha alimentar, porque a filha mais nova come bem melhor e aceita maior variedade de alimentos.


Porque será que isso acontece? Porque será que colocamos em nossas costas o peso por tudo que acontece com nossos filhos que julga-se não ser o ideal?


O psicólogo Marshall Rosenberg escreveu que a linguagem do “errado”, do “deveria” e do “tenho de” é adequada ao propósito de dominação sustentado em nossa sociedade. Quanto mais formos instruídos a julgar e considerar algo como mau ou errado, mais seremos treinados a consultar “autoridades” para saber o que constitui o certo, o errado, o bom e o mau. Por outro lado, quando estamos alinhados em nossos sentimentos e vontades, deixamos de ser “bons escravos” e agimos em consonância com o que acreditamos e com o que faz sentido para nós.


Não que isso seja fácil, pelo contrário, mas é um exercício diário. Vivo dizendo que é preciso libertar as mães e acredito verdadeiramente nisso. Uma forma de libertação é pela comunicação.


Assim, encerro o texto com o poema abaixo que acredito resumir de forma delicada todo esse processo.

Palavras são janelas (ou são paredes)

Sinto-me tão condenada por suas palavras,

Tão julgada e dispensada.

Antes de ir, preciso saber:

Foi isso que você quis dizer?

Antes que eu me levante em minha defesa,

Antes que eu fale com mágoa ou medo,

Antes que eu erga aquela muralha de palavras,

Responda: eu realmente ouvi isso?

Palavras são janelas ou são paredes.

Elas nos condenam ou nos libertam.

Quando eu falar e quando eu ouvir,

Que a Luz do amor brilhe através de mim.

Há coisas que preciso dizer,

Coisas que significam muito para mim.

Se minhas palavras não forem claras,

Você me ajudará a me libertar?

Se pareci menosprezar você,

Se você sentiu que não me importei,

Tente escutar por entre minhas palavras

Os sentimentos que compartilhamos.

Ruth Bebermeyer

Damiana Angrimani Bonavigo, mãe da Manuela e Psicóloga.

Texto de apoio:

Marshall B. Rosenberg. Comunicação Não-Violenta, Agora Editora, 2006.

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